Sofrimento Reprisado: Mediação Psíquica e Limites Jurídicos

 

 

 


O artigo propõe uma reflexão sobre a repetição do sofrimento humano diante de estruturas sociais, jurídicas e culturais que o produzem e o mantêm. O título sintetiza a tensão entre o alívio individual e a permanência do sofrimento estrutural: o sujeito sofre, busca apoio clínico, recebe acolhimento, reorganiza sua psique, mas retorna a um mundo que continua armado contra sua singularidade, seja pela heteronormatividade, pela exploração laboral ou por normas sociais rígidas. O conceito de torpor mediador descreve o mecanismo psíquico que permite ao indivíduo sobreviver, amortecendo a dor e possibilitando funcionamento diante de um contexto opressivo, mas sem transformar a moldura que a gera. Inspirado em Freud, Arendt e na crítica às estruturas normativas, o texto discute como a psicanálise e outras terapias podem aliviar o sofrimento e reorganizar trajetórias psíquicas, mas que a verdadeira mudança depende da consciência histórica e da transformação coletiva, de modo que o alívio individual não se limite a uma adaptação resignada, mas abra espaço para questionar e intervir nas condições sociais que tornam a vida insuportável.

Em nenhum momento desqualifico qualquer terapia que traga alívio psíquico. Pelo contrário, defendo, porque também sou da área de saúde.

Antes de prosseguir, aqui é uma análise abrangente das estruturas formadoras da sociedade e como essas estruturas funcionam, de uma certa forma, como dar um sentido de um alívio existencial, porém, permanecendo numa estrutura de sofrimento. Não desqualifico, não recuso os tratamentos para o restabelecimento da saúde mental. Porém, é uma microestrutura em macroestrutura, alienante, sofredora.

Em 1935, Freud escreveu uma carta a uma mãe americana preocupada com a homossexualidade do filho. Nela, ele afirma textualmente:

"A homossexualidade certamente não é vantagem, mas não é nada de que se envergonhar, nem vício, nem degradação; não pode ser classificada como doença; consideramos que é uma variação da função sexual."

E vai além:

"É uma grande injustiça perseguir a homossexualidade como um crime— e uma crueldade também."

Em outra carta, a um homem homossexual, termo da época, que sofria com sua condição, Freud reforça:

"Não posso concordar com você quando chama a homossexualidade de vício ou crime. Não é nenhum dos dois, independentemente do que os códigos legais de vários países possam implicar."

Freud despatologiza a homossexualidade no discurso teórico. Ele a define como "uma variação da função sexual, produto de certa interrupção no desenvolvimento sexual" . Isso já era revolucionário numa época em que:

  • A homossexualidade era crime em praticamente todo o mundo ocidental.

  • A sexologia do século XIX havia classificado o "homossexual" como espécie patológica.

  • "Terapias" violentas (injeções químicas, castração química, eletrochoques) eram aplicadas para "curar" homossexuais — como no exemplo que você deu do físico Alan Turing, condenado por "práticas homossexuais" na Inglaterra e submetido a injeções hormonais.

Na mesma carta de 1935, Freud oferece à mãe o que a análise poderia fazer pelo filho:

"Se ele estiver experimentando descontentamento por causa de milhares de conflitos e inibição em relação à sua vida social, a análise poderá lhe proporcionar tranquilidade, paz psíquica e plena eficiência, independentemente de continuar sendo homossexual ou de mudar sua condição."

Isso é o que chamo de aliviar a tensão do superego: ajudar o sujeito a sofrer menos, a se aceitar, a funcionar psiquicamente melhor. Mas note, Freud não diz que a cultura deveria mudar. Ele diz que o sujeito pode aprender a viver nela com menos sofrimento. A heteronormatividade permanece como pano de fundo inquestionado.

Estudiosos apontam essa ambiguidade. Por um lado, Freud rompe com a tradição médica ao afirmar que "a homossexualidade merece dificilmente o nome de perversão" . Por outro, sua teoria do Complexo de Édipo toma a heterossexualidade como "referência" e a homossexualidade como "fixação" ou "narcisismo". Freud avançou ao dizer que homossexualidade não é doença, crime ou vício — numa época em que isso podia levar à prisão e a torturas químicas. Freud recuou ao não questionar a norma heterossexual como construção histórica — ela permaneceu como fundo não problematizado. Sua clínica podia ajudar o sujeito a sofrer menos, mas não oferecia ferramentas para interrogar a violência da norma — apenas para se adaptar a ela com menos conflito interno. Se a clínica só ajuda o sujeito a se adaptar a uma cultura doente, ela é administração do mal-estar. Se ela ajuda o sujeito a interrogar a própria cultura que produz seu sofrimento, ela participa da transformação histórica.

Freud, no exemplo da homossexualidade, fez o primeiro movimento (despatologizar, aliviar o sofrimento individual), mas não fez o segundo (questionar, publicamente, a heteronormatividade como construção histórica). Isso só viria muito depois, com a Teoria Queer, com Foucault, com movimentos sociais — e com psicanalistas que levam Freud para além de Freud — o Nomo da época de Freud não possibilitava que Freud pudesse agir, publicamente, seja pelos jornais etc. contra o sistema jurídico e moral de sua época.

E a pergunta é, o que Freud podia fazer, concretamente, com um homem que dizia "Tenho um namorado, mas não posso beijá-lo na rua, não posso andar de mãos dadas, não posso viver esse amor publicamente"?

O sofrimento do paciente não é primariamente intrapsíquico (culpa neurótica, conflito edípico mal resolvido). O sofrimento é social e jurídico: a impossibilidade de viver o afeto no espaço público, a ameaça real de prisão, a violência institucionalizada. Mas esse sofrimento social entra no consultório e se apresenta como sintoma, angústia, inibição

O paciente não pergunta:

"Por que sou gay?"

Ele pergunta:

"Como viver sendo gay num mundo que me criminaliza?"

Que resposta a psicanálise podia dar?

As opções de Freud em sua época:

1. Interpretação clássica — Freud poderia buscar as "causas" da homossexualidade na história infantil do paciente — mas isso não responde à pergunta sobre como viver agora, neste corpo, neste amor, nesta cidade.

2. Alívio do superego — Freud podia ajudar o paciente a não se sentir culpado por ser gay, a aceitar sua sexualidade como uma "variação da função sexual". Isso já era muito — mas ainda deixava o paciente com o problema prático: "Ok, não me sinto culpado, mas continuo não podendo beijar meu namorado na rua."

3. Adaptação resignada — Freud poderia aconselhar discrição, viver o afeto apenas no privado, evitar conflitos com a lei. Isso é o que ele fazia, por exemplo, ao recomendar que pacientes homossexuais evitassem a militância aberta para não sofrer represálias.

4. Silêncio sobre o social — A psicanálise clássica não tinha ferramentas para intervir no campo social. O setting é individual, a escuta é do inconsciente, a transformação esperada é psíquica. O mundo lá fora permanece como "realidade" à qual o paciente precisa se adaptar.

Se Freud dissesse abertamente "A heteronormatividade é uma construção histórica, a cultura está errada, você tem direito de viver seu amor publicamente", ele estaria fazendo afirmação política, não interpretação psicanalítica, colocando em risco a própria psicanálise como instituição, num contexto onde homossexualidade era crime.

"Afirmação política". Interessante que filósofos gregos, como Platão, via a participação de todos os cidadãos como benéfica para o desenvolvimento da democracia. Atualmente, a tensão central entre a concepção clássica de política e o que chamamos hoje de politização generalizada da vida cotidiana. Para Platão, a política era a arte de organizar a polis para o bem comum. Em obras como A República, ele enfatiza que a participação consciente de cada cidadão — seja no debate, seja na tomada de decisão — contribui para a harmonia do todo e para o exercício da virtude cívica. O indivíduo, segundo Platão, é educado para discernir o que é justo, não apenas para defender interesses pessoais, mas para fortalecer a coletividade. A política, nesse sentido, é prática de racionalidade ética, mediada pelo diálogo e pela reflexão moral. Contrastando com o cenário contemporâneo, vemos que “tudo é política” tornou-se um bordão, mas nem sempre no sentido platônico de participação consciente e voltada ao bem comum. Hoje, a politização aparece muitas vezes como defesa de posições identitárias, corporativas ou ideológicas que não necessariamente visam o coletivo, mas a manutenção de privilégios, o controle social ou a proteção de interesses particulares. É o que Foucault chamaria de “biopolítica” ou “governamentalidade”: estruturas de poder que organizam comportamentos, regulam afetos e normas, transformando a esfera pública em campo de disputa por hegemonia, e não de construção democrática de consenso racional.

Então, querendo ou não, a terapia criava expectativas impossíveis para o paciente (como lutar contra uma sociedade inteira sozinho?). Não havia saída fácil. A clínica, sozinha, não resolve problemas que são estruturais. Na prática, um analista como Freud acolhia provavelmente o sofrimento do paciente sem julgamento, auxiliava-o a não internalizar a culpa social como culpa psíquica, trabalhava os efeitos da opressão no psiquismo (medo, vergonha, inibição), mas não podia oferecer ao paciente a possibilidade de viver plenamente seu amor no espaço público, o máximo era auxiliar o paciente a sofrer menos, não a transformar as condições do sofrimento. A psicanálise clássica opera no indivíduo, mas o sofrimento muitas vezes tem raízes sociais. Quando o analista só trabalha o indivíduo, ele pode estar, sem querer, adaptando o sujeito a uma sociedade doente. Não por má-fé. Por limite histórico do dispositivo. Freud não podia fazer mais do que fez. Mas nós, hoje, podemos perguntar: a psicanálise continua operando apenas no indivíduo? Ou pode também interrogar as condições sociais que produzem sofrimento? Pode e deve.

O limite histórico da psicanálise freudiana. Revela que o sofrimento não é só intrapsíquico, mas também social e político. Exige que a clínica se pergunte: o que estou fazendo quando acolho um sofrimento que vem da opressão? Estou ajudando a suportar ou estou ajudando a transformar? Essa pergunta não tem resposta pronta. Mas ela precisa ser feita. O paradoxo contemporâneo é que, embora todos sejam convidados a ter uma opinião política e a se engajar, a participação real na transformação das condições estruturais da sociedade é limitada. As “defesas não democráticas” surgem justamente quando a politização é instrumentalizada para reforçar uma normatividade ou um panóptico social que silencia dissidências ou marginaliza grupos vulneráveis — seja no mercado de trabalho, nas redes sociais ou em políticas públicas. Assim, a política deixa de ser exercício de virtude coletiva e torna-se instrumento de sobrevivência ou autoproteção dentro de um sistema que não promove igualdade efetiva. Do ponto de vista psicanalítico, isso cria um efeito de torpor mediador: o indivíduo internaliza a tensão entre suas demandas éticas ou afetivas e as pressões normativas externas, aprendendo a sobreviver politicamente sem, de fato, transformar a moldura que produz sofrimento. A “política” contemporânea, quando divorciada da ética coletiva, reproduz estruturas de opressão, mesmo sob a aparência de participação democrática, muito diferente da polis idealizada por Platão, em que cada ato político contribuía para o bem-estar da comunidade e para a realização da justiça.

Feita observação, prossigo.

Freud podia ajudar o gay a não se sentir doente. Isso já era muito para a época. Freud podia ajudar o gay a não se sentir culpado. Isso alivia o superego. Freud podia ajudar o gay a entender seus desejos como legítimos. Isso fortalece o ego. Mas tudo isso colapsa quando o gay sai do consultório e quer viver. Porque ele quer andar de mãos dadas, pode ser preso. Ele quer beijar o namorado, pode ser internado. Ele quer ser reconhecido no trabalho, pode ser demitido. Ele quer ser ele mesmo na vida pública, pode ser espancado, torturado, morto. E aí você pergunta: de que adianta um ego forte se o mundo lá fora está armado contra ele? A psicanálise, no consultório, diz: "Você não é doente, a sociedade é que é doente.”. No entanto, fora do consultório, a sociedade tem o poder concreto de prender, internar, torturar, matar. O gay volta para o consultório com a mesma ferida — não porque o ego dele é frágil, mas porque a ferida é reaberta todo dia pela violência do mundo. E a pergunta: isso é saudável? Não. Isso é insuportável.

E se ele não tem dinheiro para pagar o consultório? Porque o gay rico podia pagar Freud, ter um espaço privado para viver seu afeto, circular em ambientes mais protegidos, talvez até emigrar para outro país.

Mas o gay pobre? Ia para o hospital público onde a" ciência "da época aplicava injeções químicas, eletrochoques," terapias "violentas, onde o diagnóstico era" perversão "," doença "," anomalia ". Ele seria tratado para deixar de ser quem era (gay). Na época, a psicanálise era um luxo para poucos. E para a maioria, o que existia era a violência estatal com aval científico.

Como um gay, na época do Freud, podia viver feliz? A resposta é dura: não podia. Não havia felicidade possível dentro daquele sistema. O que havia era: estratégias de sobrevivência; vidas duplas; códigos secretos; guetos invisíveis; muita solidão; muito medo; muitos mortos. A psicanálise podia aliviar um pouco a culpa, mas não podia mudar o mundo. E o mundo, naquele momento, era uma Máquina de Destruir Gays. A clínica individual tem limites. O sofrimento social não se resolve apenas no divã. A transformação psíquica, sem transformação social, pode ser apenas adaptação à violência. A psicanálise precisa escolher: ou aceita esses limites, ou se pergunta como participar da transformação das condições que produzem sofrimento.

Ponte direta entre gay na Viena de Freud, que podia ter seu sofrimento aliviado no consultório, mas não podia viver, e trabalhador (a) atualmente na CLT (que tem o corpo protegido pela NR, mas a mente abandonada à lógica produtivista). Então temos uma moldura jurídico-social que permite o alívio paliativo do sofrimento individual, mas impede a transformação das condições que o produzem.

Todas as técnicas atuais (Terapia Cognitiva Comportamental etc.) são paliativas. Funcionam como" pequenas doses de esquecimento em uma realidade ". A metáfora é precisa: um “óculos 3D” que mostra um campo florido, mas ao redor existe guerra, corpos dilacerados. O sujeito aprende a ver flores, mas os corpos continuam lá. A guerra continua. A diferença é que ele agora tem um dispositivo que filtra a percepção do horror. Isso não é cura. É dissonância cognitiva institucionalizada.

Importantíssimo! Não condeno terapias. Mostro que elas operam num limite estrutural que não podem ultrapassar. Se fossem organizacionais, iriam além; questionariam valores morais não de alteridade — e não apenas ensinariam a ver flores. A moldura moral e jurídica, que constitui o mundo, mostra como essa moldura reprime a individualidade enquanto se apresenta como neutra, natural, inevitável. O gay que se trata com Freud carrega dentro de si um panóptico: o vigiar e punir, internalizado. Ele não precisa de guardas; ele mesmo se vigia, se policia, se esconde. E a análise pode aliviar isso, mas o panóptico está fora também. Está na lei, na rua, no olhar do outro, na possibilidade real de ser preso, internado, torturado. Viver bem seria não ter esse panóptico dentro de si. Mas como não ter, se ele está fora, concreto, armado?

A felicidade, ela é a capacidade de ter dinheiro para procurar um profissional que possa aliviar os seus sintomas. Ou seja, o sofrimento continua. O panóptico interno continua. Mas quem pode pagar alivia um pouco. Quem não pode, é entregue à violência direta. A clínica privada alivia; o Estado pune. E ambos operam dentro da mesma moldura que define o que é" normal "e o que é" anormal ".

Normose, a patologia de estar normal num mundo doente. O mal não precisa de campos de extermínio. Ele opera na alma, na mente, no cotidiano — na obrigação de ser quem não se é, de esconder quem se é, de se odiar por ser quem se é. E esse mal é banal porque:

  • Não choca.

  • Não aparece nos jornais.

  • Não tem corpo visível.

  • É apenas" sofrimento psíquico "— algo que" não incomoda "os outros.

Para quem vive, é tortura contínua.

Simetria entre CLT e “ser gay”, ou feminista, quilombola, etinia negra. A CLT protege o corpo, não a mente. O (a) trabalhador (a) podia descansar fisicamente, mas a alma continuava na linha de produção. As Normas Regulamentadoras (NRs) regulam o ambiente físico, mas não o psíquico. A lógica é: o corpo precisa descansar para retomar a produção. A mente?

" Isso é problema do trabalhador. "

É a mesma lógica do tratamento do gay na época de Freud. O corpo não pode ser preso? Não, o corpo pode continuar livre, mas a alma?

" Isso é problema dele. "

A psicanálise, a psiquiatria, a psicologia, aliviam a culpa, mas não muda “moldura”.

O trabalhador hoje é como o gay de ontem:

  • Vive em luta interna entre sua saúde mental e um meio que não liga para sua individualidade.

  • Tem direito a pausas, mas não a viver.

  • Pode tratar o estresse, mas não pode transformar o trabalho que produz estresse

O art. 147-B do Código Penal e a Nova Norma Regulamentadora NR-1 são como possíveis reconhecimentos da banalidade do mal intrapsíquico. O art. 147-B criminaliza o assédio sexual. A NR-1 (atualizada em 2022) inclui riscos psicossociais no gerenciamento de saúde do trabalhador. Isso é avanço? Sim. Mas é avanço dentro da moldura, não da mudança total da moldura. Essas mudanças reconhecem o sofrimento individual ou a responsabilidade coletiva? Elas permitem tratar a ferida ou apenas tornam o sistema menos cruel? Porque se o trabalho continua organizado para produzir sofrimento, mas agora tem" pausas para saúde mental "— isso é cura ou é gestão mais eficiente da doença?

No fundo, é uma estrutura de produção do sofrimento que opera em três níveis:

  1. Nomos (moldura moral-jurídica) — define o normal e o anormal.

  2. Instituições (clínica, justiça, trabalho) — administram os corpos e as almas dentro dessa moldura.

  3. Indivíduo — internaliza o panóptico, se vigia, se pune, adoece.

E as" soluções "oferecidas (terapias, pausas, direitos) operam no nível 2 e 3, mas nunca no nível 1. Salvo excessões, raríssimas! O paralelo é claro: o sujeito sofre não por falta de técnica, mas porque o ambiente normativo-moral-jurídico não muda, e a psique sofre como resultado. O sujeito vê “um campo florido” (resolução de sintomas), mas a guerra ao redor (pressão social, jurídico-moral, capitalismo normativo) continua.

Hannah Arendt fala sobre a banalidade do mal, mas ela pensou no coletivo. Desloco para o indivíduo: a normose cria sofrimento interno, invisível, cotidiano. Sem sangue, sem corpo dilacerado, mas com efeitos psíquicos concretos: ansiedade, culpa, medo, autocensura. No caso do trabalhador ou do sujeito gay ,na época de Freud, a “normalidade” é imposta como medida de adaptação à sociedade, mas isso tortura a subjetividade.

O que pode transformar a moldura?

Se a psicanálise e outras terapias aliviam sintomas, mas a moldura (cultural, jurídica, social) persiste, a transformação só vem de mudança histórica coletiva. Pode ser política, jurídica, econômica ou cultural. No entanto, essa transformação não é externa à psicanálise ou outras terapias: ela só ocorre quando sujeitos conscientes do sofrimento coletivo agem sobre ele. A moldura é uma construção social, portanto mutável, mas lenta e complexa. Mudanças graduais (“reformas”) têm efeito limitado se não atingirem a lógica profunda que sustenta a normose. Exemplo: a abolição da escravidão formal não eliminou o racismo intrapsíquico, o quel ainda persiste neste início de século XXI. O que mudou a moldura, formal, foi luta social, transformação cultural, educação, simbolização de novos valores.

A clínica pode participar sem se dissolver?

Sim, mas com cuidado conceitual. A clínica não se dissolve em ativismo político, mas pode articular transformação subjetiva e consciência histórica. O analista pode ajudar o sujeito a perceber como a moldura social produz sofrimento, a colocar em palavras e sentidos sua experiência, e a agir coletivamente. Um trabalhador que percebe que seu sofrimento não é “fraqueza” pessoal, mas efeito da normose corporativa, pode mobilizar-se por mudanças de práticas laborais. Ou seja, a clínica expande o sujeito, dá instrumentos para transformar parcialmente a moldura, sem abandonar a função clínica de acolhimento e elaboração psíquica.

O analista não pode “fazer no lugar do sujeito”. Mas ele pode, simbólica e subjetivamente:

  • Reorganizar a repetição do sofrimento, mostrando que não é destino inevitável.

  • Facilitar novas trajetórias psíquicas — o sujeito não precisa mais repetir, pode reescrever sobre ela.

  • Criar consciência histórica — perceber que seu sofrimento é efeito de normas e relações de poder, e não falha pessoal. Ou seja, não é só paliativo, é potencializador de ação e consciência. Mas não substitui a luta social.

Avanços graduais (art. 147-B, do CP, a NR-1, direitos trabalhistas) melhoram condições, reduzem sofrimento, mas não alteram o panóptico intrapsíquico em profundidade. A moldura muda radicalmente quando há ruptura estrutural, transformação de valores e relações que sustentam normas. Exemplo histórico: a Revolução Francesa, o movimento sufragista, a descolonização. Avanços graduais só são significativos se acumulados, mas a verdadeira mudança exige reestruturação simbólica e normativa. Ou seja, reformas aliviam, rupturas transformam. A clínica e as reformas, parciais, vagarosas, tornam a experiência menos letal psicologicamente.

Os benefícios do câncer de pulmão:

"A Philip Morris, uma companhia de tabaco, tem ampla atuação na República Tcheca, onde o tabagismo continua popular e socialmente aceitável. Preocupado com os crescentes custos dos cuidados médicos em consequência do fumo, o governo tcheco pensou, recentemente, em aumentar a taxação sobre o cigarro. Na esperança de conter o aumento dos impostos, a Philip Morris encomendou uma análise do custo-benefício dos efeitos do tabagismo no orçamento do país. O estudo descobriu que o governo efetivamente lucra mais do que perde com o consumo de cigarros pela população. O motivo: embora os fumantes, em vida, imponham altos custos médicos ao orçamento, eles morrem cedo e, assim, poupam o governo de consideráveis somas em tratamentos de saúde, pensões e abrigo para os idosos. De acordo com o estudo, uma vez levados em conta os 'efeitos positivos' do tabagismo — incluindo a receita com os impostos e a economia com a morte prematura dos fumantes —, o lucro líquido para o tesouro é de 147 milhões de dólares por ano.A análise de custo e benefício foi um desastre de relações públicas para a Philip Morris. 'Companhias de tabaco costumavam negar que o cigarro matasse', escreveu um comentarista. 'Agora, elas se gabam disso'. Um grupo antitabagista publicou matérias pagas em jornais mostrando o pé de um cadáver em um necrotério com a etiqueta 'US$ 1,227' presa ao dedo, representando a economia do governo tcheco com cada morte causada pelo cigarro. Diante do ultraje público e ridicularizado, o diretor executivo da Philip Morris se desculpou, reconhecendo que o estudo mostrava 'um desrespeito absolutamente inaceitável pelos valores humanos básicos'. Alguns diriam que o estudo da Philip Morris mostra o desatino moral da análise de custo e benefício e do pensamento utilitarista que sustenta. Encarar a morte por câncer de pulmão como um benefício final realmente mostra um inominável desrespeito pela vida humana. Qualquer diretriz moralmente defensável em relação ao tabagismo deveria considerar não apenas os efeitos fiscais, mas também as consequências para a saúde pública e para o bem-estar social."(SANDEL, Michael J. Justiça: o que é fazer a coisa certa . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015)

Notem. No estudo da Philip Morris:

  • Fumantes morrem cedo.

  • Governo economiza com aposentadoria, saúde, abrigo.

  • A morte é contabilizada como lucro líquido.

O horror está em transformar a morte em benefício fiscal.

Logo:

  • O sofrimento psíquico é administrado.

  • O sujeito funciona melhor no sistema que o adoece.

  • O sistema economiza com revoltas, colapsos, rupturas.

  • A" menos letalidade "é contabilizada como ganho de adaptação.

O horror é o mesmo: o sofrimento não é eliminado, é gerenciado; a morte psíquica não é evitada, é adiada; o sistema não é interrogado, é preservado.

" Menos letal "não é o oposto de" letal "; é apenas uma versão mais lenta, mais administrável, mais tolerável do mesmo processo de morte. Quem sofre de câncer por tabagismo, a família sofre também. Porém, numa sociedade que se diz “nós”, “patriota”, cada núcleo familiar é uma ilha com os seus sobreviventes. A clínica que só visa" menos letalidade "pode estar servindo ao sistema — mantendo os corpos funcionando, as mentes suportando, as vidas se arrastando — sem nunca perguntar por que é letal em primeiro lugar. Há uma cumplicidade silenciosa quando o analista se contenta em" aliviar "sem interrogar a fonte. Se a clínica só torna a experiência menos letal, ela não está fazendo pelo sujeito o mesmo que o governo faz pelo fumante? Administrando a morte para que ela seja mais lucrativa (para o sistema) e menos custosa (em termos de ruptura)?

O fumante da Philip Morris morre, o governo lucra. Ninguém pergunta por que ele fumava — publicidades estilos Edward Bernays. O sujeito da clínica" menos letal ", pois “sobrevive” psiquicamente, o sistema lucra (menos absenteísmo, menos conflito, menos ruptura). Ninguém pergunta" Por que ele adoeceu ". A clínica deve abandonar o alívio do sofrimento. O" alívio ", sem transformação, é administração da miséria. E mais, administrar a miséria sem interrogar suas causas é cúmplice da miséria.

O que alerto é o abismo entre o que se passa dentro do consultório (alívio, acolhimento, reorganização psíquica) e o que espera o sujeito lá fora (a mesma estrutura que o adoeceu). O trabalhador atual faz terapia, aprende a gerenciar ansiedade, a estabelecer limites, a respirar — e ao sair, encontra o mesmo taylorismo, o mesmo fordismo, a mesma pressão por produtividade, o mesmo assédio. A clínica age na individualidade — e isso é importante. O sujeito sofre menos, se conhece mais, se fortalece. Mas a estrutura que produz o sofrimento — o nomos, a moldura, o panóptico social, a organização do trabalho, a heteronormatividade, o sexismo etc. — continua intacta.

Então o sujeito vive um “eterno retorno” nietzschiano:

  • Trata o sofrimento.

  • Rertorna par mundo que produz sofrimento.

  • Sofre de novo.

  • Volta a tratar.

E assim infinitamente. É como encher um balde furado. A clínica cuida da água, mas o furo continua lá.

De que adianta tratar a subjetividade se a objetividade continua produzindo a mesma subjetividade doente? A clínica não estaria apenas preparando o sujeito para suportar melhor o insuportável, em vez de transformar o que torna a vida insuportável? Se a clínica sabe que o mundo fora desfazerá parte do que ela construiu — e continua apenas tratando — isso não é omissão cúmplice? Não no sentido moralista. No sentido estrutural. O sistema conta com a clínica para amortecer seus efeitos mais letais, para os corpos continuarem funcionando, para que a revolta não aconteça. A clínica vira válvula de escape do sistema. O sujeito desabafa, se fortalece, volta a produzir. O sistema segue intacto.

20 chicotadas nas costas do escravo como tratamento para retornar ao serviço.

No sistema escravocrata, o corpo do escravo é propriedade, a chicotada não é castigo apenas — é manutenção da ordem. Após chicoteado, o escravo volta ao trabalho. Antes, como" benevolência ", a ferida é tratada para que ele possa produzir de novo. Ninguém pergunta por que ele foi chicoteado — e mesmo sabendo do porquê, ainda assim, sabendo, há dignidade na justificativa de" só saber "? O horror está em medicalizar, aplicar terapias, a violência do sistema. Tratar os efeitos sem tocar nas causas e devolver o corpo à mesma máquina que o mutilou.

As terapias contemporâneas (seja TCC, psicanálise, PNL, qualquer outra) arriscam fazer o mesmo. O sujeito chega ferido pelo sistema (trabalho, norma, pressão, exclusão), a terapia trata a ferida — ansiedade, depressão, burnout, culpa. A pessoa volta ao mesmo sistema que o feriu e o sistema segue intacto, produzindo os mesmos feridos. Isso é cura ou é manutenção?

Distinção fundamental. Na escravidão estrutural, o sistema escravocrata clássico, explícito, com correntes e chicotes. Na escravidão organizacional, o sistema atual, que não precisa de correntes, porque organiza a vida de tal forma que o sujeito se submete voluntariamente (ou por necessidade) a condições que o adoecem. Na escravidão organizacional, não se é propriedade de um senhor, contudo seu tempo, sua energia, sua saúde mental são extraídos pelo trabalho, pelas normas, pelas expectativas. E quando você adoece, há dispositivos de recuperação (terapias, medicação, pausas) para que você volte a produzir.

Na tradição hermética, o “Véu de Ísis” cobre a verdade última, o mistério que não pode ser revelado. Dizer que" Nenhum mortal jamais levantou meu véu "significa que a essência última das coisas é inacessível. O"Véu"encobre que o sistema precisa do sofrimento que produz, faz parecer que as terapias são curas, quando podem ser manutenção. O" Véu "esconde que" organizar a vida "é, muitas vezes, organizar a exploração de forma mais eficiente. Levantar o véu seria ver que o sofrimento não é acidental — é funcional ao sistema, as terapias, sem transformação social, são amortecedores —, a" cura " individual pode ser a mais eficiente gestão da doença coletiva.

Se as terapias são como tratar as costas do escravo para ele voltar a ser chicoteado, o que seria, de fato, cura? Cura seria:

  1. Acabar com a chicotada?

  2. Transformar o sistema que chicoteia?

  3. Ou apenas anestesiar as costas para que a dor não atrapalhe a produção?

Se a cura for apenas a terceira opção, então o terapeuta virou feitor de jaleco branco. Não por maldade — por função, obrigacional pela moldura. O sistema precisa de corpos funcionais, e a terapia entrega corpos funcionais, até certo limite. Racionalidade neoliberal é extraordinariamante, cruel. A vida é calculada, o sofrimento é contabilizado, a terapia entra como custo necessário para manter a produtividade. Não é que o sistema queira felicidade (saúde orgãncia e emocional). É que trabalhador (a) menos ansioso (a) produz mais. A terapia vira investimento em capital humano. O sujeito não é curado; é otimizado.

Atualizado em 23/02/2026:

Meus pêsames para a família do psicólogo Manoel Neto. E minha solidariedade, para milhões de seres humanos que vivem, não, sobrevivem, aparentemente, com saúde. Segundo a OMS, saúde é física, mental e espiritual.

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